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quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Passagens sobre fogo, nudez e mortos na Bíblia, segundo sábios da Mishna e Gemara



Passagens sobre fogo, nudez e mortos na Bíblia, segundo sábios da Mishna e Gemara

“Não é a minha palavra como fogo, diz o Senhor, e como um martelo que esmiúça a pedra?” (Jer. 23:29)

“Pois os vivos sabem que morrerão, mas os mortos não sabem coisa nenhuma, nem tampouco têm eles daí em diante recompensa; porque a sua memória ficou entregue ao esquecimento (Prov. 9:5).

“Pomba minha, que andas pelas fendas das penhas, no oculto das ladeiras, mostra-me o teu semblante faze-me ouvir a tua voz; porque a tua voz é doce, e o teu semblante formoso” (Cant 2:14)

“Não descobrirás a nudez da mulher de teu pai; é nudez de teu pai.
 A nudez de tua irmã por parte de pai ou por parte de mãe, quer nascida em casa ou fora de casa, não a descobrirás. Nem tampouco descobrirás a nudez da filha de teu filho, ou da filha de tua filha; porque é tua nudez.” (Lev. 8:10).


      

      Quando lemos certas passagens bíblicas, vemos que sua interpretação necessita de uma tradição oral confiável, e de uma jurisprudência de sábios. Ainda mais quando se refere a descumprimento dos mandamentos (mitzvot), e quando envolve certa dimensão mística, além daquela prática do dia-a-dia. Desta forma, em especial sobre o antigo testamento já temos esse material, através da Mishna, que é essa ‘repetição’ da tradição oral, de modo a interpretar corretamente a Bíblia.  
Sobre a passagem referente ao fogo em Jeremias, vemos que o que quer ensinar é que a Palavra não está sujeita a impureza, assim como o fogo. Vemos assim que também nas vestes não se aceita mescla de fios, e por aí vai. Então quem está com a Bíblia, não deve se preocupar com a impureza, ou se a pode levar ou não a determinado local. Apesar de que não seria nobre ler no banheiro, ou em local fétido. O fogo purifica e renova, assim como a palavra de Deus faz o mesmo. Assim mesmo quem está impuro, poderia se ocupar da Torá (Bíblia), como o caso de quem teve relação com sua esposa. Por outro lado, melhor que não se ocupe, antes que se purifique na água. 
Sobre a passagem dos Provérbios (Mishlei) ou melhor, Parábolas, vemos que não se refere aos mortos em um sentido materialista, mas sim aos verdadeiros mortos (ímpios) e os que são chamados de vivos, que são os justos (tsadikin). Então os justos vivem, mesmo que tenham morrido, porque participarão da congregação dos justos. Já os ímpios encontram Gehena, e estão em condição de mortos. Isso confirma Ezequiel, em capítulo 21 versículo 30.  Então as almas sabem o que passa no mundo, e em Talmude se discute sobre duas moças (falecidas) que conversam no cemitério. Mesmo porque tais almas retornam em guilgul (reencarnação).
            Já sobre a nudez, sabemos da proibição de não se descobrir nudez de irmã, madrasta etc. Mas o que vem a ser essa nudez? Jesus já deu a resposta ao afirmar que quem cobiça a mulher do próximo já comete adultério. O que interessa aqui é o desejo e ver de forma provocativa a mulher. Pois revela mais a alma animalesca, a influência dos demônios. Desta feita, segundo a Mishna e sábios, a nudez está em mais formas, como na voz da mulher, nos seus cabelos e mesmo no dedinho do pé. Deste modo, sobre um sábio que aconselhava jovens a se banhar no rio, foi questionado se ele não cometia esse pecado. Ele então falou que para ele aquelas moças eram como patos. Desta feita, o que é combatido na escritura é a má intenção, esse desejo cobiçoso sobre a mulher, que a ofende – desde que não a peça em casamento. Por isso Salomão falou dos cabelos, da voz da mulher, porque isso despertava o desejo, era a nudez. 
A respeito das passagens a que não se chega à interpretação e a um consenso, os sábios dizem que a isso o profeta Elias irá resolver. Podemos ver nisso que o Messias (Mashiah) ou Cristo resolve, e assim temos muitas respostas nos ensinos de Yeheshua (Jesus). Mas com relação ao que já temos um estudo, ótimo que aproveitemos, e que devemos lembrar que Jesus sabia tanto quanto esses sábios, uma vez testado na Sinagoga aos 12 anos. E nos 4 Evangelhos se vê muito ensino talmúdico do mestre de Nazaré. Resta por fim observarmos a dimensão mística e superior dessas passagens, e ver além da regra moral, uma regra espiritual a que nos garante a vida eterna. Não desperdiçar a sabedoria nos leva ao caminho da porta estreita, e nos deixa mais humildes.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Mateus em hebraico e diferenças com relação à versão grega



Mateus em hebraico e diferenças com relação à versão grega
 
“Eu, na verdade, vos batizo em água (nos dias, não fala água), na base do arrependimento(Teshuvah)”Mat 3:11
“Bem-aventurados os que choram (esperam), porque eles serão consolados”Mat. 5:4
“Não deis aos cães o que é santo (a carne sagrada), nem lanceis aos porcos as vossas pérolas” Mat 7:6
“Ou pensas tu que eu não poderia rogar a meu Pai (enfrentar meus inimigos), e que ele não me mandaria agora mesmo mais de doze legiões de anjos?” Mat 26:53
“E tendo cantado(retornaram) um hino, saíram para o Monte das Oliveiras”.
“Não está aqui, porque ressurgiu, como ele disse. Vinde, vede o lugar onde jazia (onde se levantou)” (Mat 28:6)

         O Evangelho de Mateus é de suma importância a doutrina cristã. Vemos porém que a versão que temos disponível em nossa Bíblias, está com certos erros de tradução, haja vista a dificuldade mesmo que traz a língua hebraica, por não ter antes vogais, o que depois foi suprido com certos sinais. Lendo uma obra de Judeus que aceitam Jesus como o messias, notei a profundidade e detalhismo que tratam o tema, através de um escrito chamado Toldot Yehosuah, onde tem-se a versão em hebraico do livro de Mateus (Matityah), onde se trata de uma série de termos usados pelas igrejas, que na verdade assim como os nomes, foram coisas helenizadas, como os nomes, e assim retirando a dimensão do sagrado que carregavam tais detalhes. 
       Primeiro a literatura sagrada se reveste de certos detalhes, como em expressões e jogos de palavras que usava Jesus, com até calculo numérico das letras, o que se perde ao traduzir. Também os nomes bíblicos têm significados, são a essência das pessoas, e mudar um Yohanan em João, altera muito o sentido das coisas. Com relação a antigo testamento, nem se fala, haja vista tradições de sabedoria serem focadas em um texto inalterável. A versão usada, dos 70, em muito deixa a desejar e temos hoje um material mais fiel no velho testamento também, ou seja, o Targum, que é uma versão em aramaico da Bíblia Hebraica. Mesmo Bíblia Hebraica em português já temos disponível, com texto mais puro e fiel ao original.
       Isso nos deixa perplexos quando vemos a doutrina de fé das igrejas, as quais muitas vezes se focam na versão literal das Escrituras, mas já usando de coisas corrompidas, seja por versão adulterada romana, seja por traduções simplificadas, como de Rei Jaime e outras. Mas com relação a Mateus, vemos algumas confusões na tradução de certas palavras hebraicas que muda todo o sentido. Falar por exemplo nas bem aventuranças, “Bem aventurados os que esperam”, dá um foco bem diferente a uso da fé com sentimentalismos, o que ocorre em muito em igrejas populares. E o batismo seria nos dias de Teshuvá, com toda a amplitude que o termo exige, o retorno a Deus, e não apenas um superficial arrependimento, como muitos acham, e nem meramente na água. Apesar de que a purificação na água ser doutrina judaica. Vemos assim uma manipulação para a defesa de uma doutrina, como de colocar quem não se banhou em água nesse ritual, como alguém sujeito ao inferno e outras bobagens. Já no capítulo 26, não fala em nenhum “rogar ao Pai”, mas sim em enfrentar inimigos, alterando completamente o sentido da passagem. E não dar aos cães a carne sagrada coloca mais realidade na frase, não sendo tão metafórica como se podia entender antes. 
       Fato é que em outras frases difíceis de entender do mestre Jesus, como em “amar os inimigos”, há jogos de palavras que somente com o conhecimento do hebraico se pode entender. Desta feita, existe um véu de compreensão aqueles que apenas usam da versão grega, e sua má tradução, contaminada por interesses de igrejas x, y, z. Interessante é que até mesmo nas novas denominações, se acaba por perceber sempre uma busca de uma verdade maior, ou alguma identidade especial. Vemos assim que os escritos do Novo Evangelho devem estar em sintonia com o antigo, uma vez que segue a sua tradição e mesmo as promessas do Antigo testamente se cumprem no novo. Mateus em hebraico fica mais enquadrado nesse contexto do que a versão grega.

domingo, 8 de dezembro de 2013

O Reino dos Céus e seu encontro místico



O Reino dos Céus e seu encontro místico
      
“Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus. Porque este é o anunciado pelo profeta Isaías, que diz: Voz do que clama no deserto; Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas” (Mat. 3:2).
“O reino de Deus não vem com aparência exterior; nem dirão: Ei-lo aqui! ou: Eí-lo ali! pois o reino de Deus está dentro de vós”. (Luc. 17:20)
“Em verdade, em verdade te digo que se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” (Jo 3:3).

A principal doutrina de Yeheshua (Jesus) parece ter sido a doutrina do Reino. Chamada de diversas maneiras, o mestre usava de parábolas para se referir a mesma, haja vista a carga de mistério do ensinamento, e a reserva de sua declaração. Aos discípulos, porém falava abertamente, sem parábolas. Na Bíblia há muitas referências ao Reino, sendo que no judaísmo a cabala se refere como a esfera de Malkut, revelando o atributo do reinado de Deus. Muitas vezes confundido o termo com mero poder temporal, ou com poder de igreja x ou y, e assim por diante, até mesmo em confusões teológicas e sectárias, resta que o Reino não fica muito próximo, como o mestre nos havia ensinado. Confunde-se com a chegada do Apocalipse, ou com algum poder mundial, ou mesmo com simples metáfora ou figura de linguagem. Mas o Reino é em verdade um estado sublime e real.
Teremos assim de fazer umas considerações sobre o Reino. Primeiro que o seu encontro místico deve dar um estado tal, que nada mais importaria, nem dinheiro, nem posses e nem nada. Isso fica claro quando Yeheshua leva muitas lições de desprendimento (kenosis), e mesmo o seu exemplo leva a imitação nesse sentido. Logo o Reino não está próximo no tempo, mas sim no espaço. Está em nós mesmos, como lembrou Lucas. Também não se confunde com reino temporal, não que o messias não venha também nesse sentido, mas que governa antes a todos, interiormente. Já em muitos escritos meus falei de Cristo Interno, o qual independe de Igreja, governo do mundo, rei etc.
Para se chegar a esse Reino, além de imitar o que nos ensinou Nosso Senhor Jesus, se tem de ter uma dedicação e uma busca no caminho, que além de purificação, conversão e fé, exige por fim uma união com Deus, ou ao Pai, tão proclamada e lembrada na oração do “Pai Nosso”. Também o ritual da eucaristia, bem como experiências com o Espírito Santo, revelam essa proximidade, e mesmo o Reino que está próximo, e o compartilhar dessa realidade. Estudos meramente teológicos são limitados, e a simples ocorrência de curas ou milagres, ou de mera prosperidade material não garantem o Reino, apesar de que muitas igrejas se foquem apenas nesse sentido. Nem a tradição ou a instituição x ou y levará meramente por sua afiliação o estado do reino de Deus. A experiência é pessoal e íntima. 
Para tanto, alguns místicos encontraram o Reino dos Céus, ou melhor, tiveram a experiência deste. Assim não basta apenas estudar, ter fé, ou trabalhar. Se tem de ter o merecimento e saber que é “chagada a hora” e que se estará “unido ao Pai”, se terá retornado a “casa do Pai”. Esse encontro leva aquele amor que tanto pregou o mestre, incondicional, relativo ao coração, e não a concupiscência. Isso nos ensina principalmente a parábola do “Filho pródigo”, que se perde no mundo, mas que retorna ao Pai. Desta feita, o Reino já está próximo, e basta que retornemos ao mesmo, uma vez que o Pai não rejeita o filho. E além da fé e da razão, a principal ferramenta que leva a compreender o que se trata o Reino é a intuição, que nos inspira e une ao Espírito Santo, assim levando que entremos nessa “porta estreita”, que é a iniciação nos mistérios de Deus.  Esse é o kerygma (boa nova). Exige assim a purificação e a iluminação que decorre da união com o Pai, na imitação de Cristo e na sua presença interior.